Danielle Terra
Vivemos em uma sociedade onde o homem começou a olhar para o belo enxergando o feio. O que é belo se transformou em estranho e assim passou a não se identificar mais com seu habitat natural: a natureza, propriamente dita!
Várias vezes presenciei pessoas indo a um ambiente natural, como uma cachoeira linda, no meio do mato, cheio de pássaros, insetos vistosos, peixes, árvores, flores, ar puro e tudo de mais maravilhoso que compõe esse ambiente. O individuo é morador de uma grande cidade (que nem precisa ser tão grande), chega a tal lugar e estranha tudo! Não sabe andar no mato, se coça todo, grita ao ver um grilo pulando, entra na água e volta correndo para a margem gritando: "Tem um monte de peixinhos assassinos querendo comer meu pé!" O máximo que o agrada é um passarinho bonitinho ou uma bela orquídea que imediatamente e brutalmente a captura para levar para casa.
Esse é o perfil do cidadão cujo habitat natural é uma floresta de cimento e shopping centers. Um mundo criado pelos homens, que se esqueceram de que a matéria prima que os mantém em seu ambiente escolhido vem da natureza, seu ambiente original.
O oposto deste é o grande pequeno homem, que vive em sua cidadezinha do interior. Vive de sua hortinha no quintal de casa, cria suas galinhas, cura as desventuras do corpo e da alma com as ervas do fundo da horta. Se está calor, dá um “tibum” no rio no fundo de seu quintal. Esse pequeno grande homem, em um dia qualquer, vai a São Paulo para uma dessas casualidades da vida. Vai, por exemplo, visitar uma tia que há anos atrás foi trabalhar na metrópole para melhorar de vida. O pequeno grande homem, se vendo na grande cidade, sente-se apenas um pequeno homem, diante de um lugar estranho, que se opõe a sua vida natural. E quando vai a um shopping center, onde ou se vende a matéria (comprando, roupas, tênis, entre outras mundanidades), ou sofre de banzo, fica se sentindo completamente perdido e estranho dentro da floresta de cimento. E percebe que está em outro mundo... Perceberam, leitores distraídos? Em outro mundo!
A historinha do Zé da cidade grande e do Zé do interior nos leva à importância da conservação da natureza para a sobrevivência humana. Há três princípios básicos para isso: percepção, sensibilização e conscientização ambiental. Não há modelo de conservação sem a identidade pessoal com o meio que o individuo vive. Essa identidade está vinculada ao (re) conhecimento de seu ambiente e de suas origens. Mesmo que o individuo nasça, cresça e permaneça em uma cidade grande, sem contato algum com a natureza, ele irá se sensibilizar ao perceber e entender que o leite vem da vaca (e está no pasto do seu Zé da roça), ou a cenoura vem da terra e sua base vital todinha depende da boa qualidade do meio de vida natural. Ele vai entender que, mesmo estando fora, está dentro disso tudo. E passa a valorizar não só através de um ideal utópico, mas com atos práticos, no dia-a-dia.
Temos o vicio de cuidar só do que valorizamos. E só valorizamos o que identificamos. Esse é o modelo da Identidade Ambiental: Identificar, (re) conhecer, valorizar, amar, cuidar. Para adquirir essa identidade, é necessário se sentir parte de seu meio.
É natural a falta da identificação quando crianças acreditam que o leite vem da caixinha, as frutas vêm do supermercado, a carne do freezer e o refrigerante já existe em alguma fonte! Não se identificam com a natureza, que é a base fundamental para toda nossa existência. Lembrando que a natureza não permanece apenas na Terra. Onde as discussões ambientais ficam apenas voltadas para nosso planeta. Diga-se de passagem, “mera pretensão humana”. A natureza está comportada em todo o universo onde o tempo todo nos doa sua energia vital, natural e boa.
Diante da falta de identidade do Homem com a Natureza, surgem as perguntas: O que há entre a Natureza e o Homem? Em que momento foi perdida esta conexão? É como se não fizesse mais parte de seu habitat natural. O homem se tornou intruso em sua própria casa: a Natureza!
Assim caro leitor distraído, deixo-o e despeço-me. Caminhando entre a humanidade concebida sem pecado!
Danielle Terra é gestora ambiental e sócia da Viraminas Associação Cultural.
Imagem daqui.
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